Entrevista - GM André Lucas (ORL)



Os Orlando Magic são a grande sensação da 4ª temporada do BraTuga até ao momento! Se por um lado a qualidade individual dos jogadores parecia indiciar que o 2º lugar que ocupam presentemente na Conferência Este seria uma meta inatingível, por outro lado quem conhece o seu GM sabe que não precisa de muitos ovos para fazer omeletes de qualidade. Foi precisamente para falar deste sucesso quiçá inesperado dos Magic, mas também do state-of-the-art da nossa liga, que o BTG News foi ao encontro de André Lucas, o membro da nossa comunidade que está mais perto da ação real da NBA (reside em Boston).


BTG News - Olá André, antes de mais obrigado por teres aceitado o nosso convite. Vamos começar com uma pequena provocação: apesar de toda a tua experiência em simuladores e de toda a comunidade reconhecer que és um dos GM’s mais capazes da liga, que te valem aliás o epíteto de “Mestre da Tática”, nunca ninguém pensou que os Magic, em função do seu roster, pudessem estar neste momento em 2º lugar da Conferência Este, com um recorde de 18-6. Sem revelares demasiados detalhes estratégicos, como é que explicas o sucesso da equipa, numa altura em que já ultrapassámos o 1º quarto da temporada regular?

André Lucas Sempre uma honra poder participar nestas entrevistas, obrigado pelo convite. Admito que fiquei um pouco chocado com o estado dos Magic quando peguei na equipa, e a cereja no topo do bolo foi perceber que, mesmo assim, nem tínhamos a 1st pick para explorar essa via.

Ainda assim, achei que havia material suficiente para trabalhar e começar a implementar um sistema de jogo que gosto bastante e que acredito ter potencial para ir longe. Isso também foi facilitado por algumas trocas com outros GMs que estavam alinhados com a visão que queríamos para a equipa.

Neste momento, ainda não estou 100% satisfeito com o que temos para o sistema ideal que procuro, mas já é uma excelente amostra de que estamos no caminho certo. Muito do sucesso da equipa explica-se por isso mesmo: temos identidade e capacidade, tanto no cinco inicial como vindo do banco, que em termos de overall não difere assim tanto. Isso ficou bem visível com a equipa a manter bons resultados mesmo sem o Coby White e o Myles Turner.

Por último, a nova adição tática tem ajudado bastante, permitindo-nos adaptar melhor ao adversário e, ao mesmo tempo, explorar os nossos pontos fortes. Dou o exemplo do Dillon Brooks: conseguimos tirar partido da sua capacidade defensiva de lockdown, mas em certos jogos também ajustamos o plano para que ele assuma mais responsabilidade ofensiva, chegando a produzir como um jogador de 86+ de overall.

 

BTG News A equipa já dava sinais de evolução desde a tua chegada no início da temporada passada, mas acredito que nem tu próprio estivesses à espera deste nível de performance. Quão longe vês esta equipa chegar? Está em linha com o que tinhas pensado para esta época? Ou já te viste “obrigado” a redefinir objetivos, depois deste excelente arranque?

AL - Admito que não estava 100% certo de que ia conseguir já este tipo de resultados, mas esperava claramente fazer melhor do que na época passada. Defini um período inicial de 15 jogos para perceber melhor a direção da equipa e ajustar o plano para a época.

Escusado será dizer que, com mais de 70% de vitórias, acho que já temos um objetivo bem definido: lutar por um lugar no top 4 para os playoffs, mesmo sabendo que, em teoria, o plantel pode não estar nesse nível.

Um último ponto é que sinto que já temos uma base de plantel para várias épocas. Há margem para evoluir e ir ajustando conforme aquilo que for identificando como necessário ao longo do tempo.

 

BTG News - Não podemos perder a oportunidade de falar de tática. Os Magic são neste momento o 3º melhor ataque da liga, mas a defesa está a meio da tabela. Sabemos que, por norma, gostas de dar uma identidade defense-first às tuas equipas. É algo que este ano tem sido menos prioritário ou consideras que estes rankings são sobretudo circunstanciais?

AL - Excelente questão. Acho muito mais importante explorar diferentes abordagens logo no início da regular season para perceber qual é a melhor forma de jogar no ataque, em vez de estar apenas focado em pausar o jogo e explorar a capacidade defensiva da equipa.

O facto de conseguirmos ter o 3.º melhor ataque, mesmo sendo uma equipa maioritariamente defense-first (diria uns 80%), dá-nos uma vantagem tática e estratégica enorme, tanto na CUP como nos playoffs. Acabamos por não ter tanta necessidade de recorrer a DCs mais “amplas”, porque já temos essa flexibilidade dentro do próprio sistema.

Relembro também que jogadores como o Coby White e o Jerami Grant encaixam muito bem nesta vertente mais ofensiva, e, de certa forma, o resto do plantel acompanha essa mesma ideia, seja no cinco inicial ou vindo do banco.

Isso acaba por refletir-se nas estatísticas do banco, principalmente no plus/minus, que não está assim tão distante do cinco inicial, o que mostra bem o equilíbrio que conseguimos manter.

 

BTG News - Acaba por ser curioso pois, olhando para o roster, a maioria dos jogadores mais utilizados são jogadores no mínimo muito competentes do ponto de vista defensivo, com a exceção notória de Coby White. É algo que esteja sempre presente na construção do roster? É isso que explica, por exemplo, que um jogador como o Jerami Grant tenha uma utilização reduzida?

AL - O basquetebol é um desporto de equilíbrio e até vou mais longe ao dizer que é provavelmente onde isso é mais determinante para o sucesso. Tento sempre construir o roster com isso em mente, sobretudo olhando para a rotação e garantindo que sei exatamente que cinco está em campo em TODOS os momentos do jogo.

O Coby White é perfeito para isso. Está a ser um dos bases mais eficazes da liga e, na minha opinião, é claramente o meu All-Star. Muito disso vem do facto de não ter muitos jogadores no cinco inicial que compitam diretamente com o seu papel e as suas tendências.

No cinco do banco, acontece algo semelhante com o Grant. Se tivesse o Grant a titular ao lado do Coby White, acredito que ambos iriam perder rendimento, não só ofensivo, mas também defensivo. Desta forma, consigo garantir que temos sempre um scorer competente durante os 48 minutos, com apoio de jogadores como o Castle e o Grimes.

Mais uma vez, tudo se resume ao equilíbrio. Mesmo sabendo que nem todos têm exatamente a identidade defensiva que prefiro, o conjunto acaba por funcionar muito bem.

 

BTG News - Sem sair do tema das táticas, o início desta temporada ficou marcado por uma novidade muito relevante no simulador. Como vês a introdução dos “Coaching Styles” no BraTuga? Fala-nos um pouco sobre o impacto desta nova funcionalidade na tua elaboração das DC.

AL Tudo o que dê ao GM mais controlo e opções para pôr a equipa a jogar será sempre muito bem recebido por mim e, sinceramente, é também a parte que mais gosto de “explorar”.

Esta inclusão é um acréscimo bastante importante para o simulador, por isso deixo desde já os parabéns pelo trabalho bem feito. Vejo que muitos GMs já estão a tirar bom proveito desta novidade, mas também noto alguns mais conservadores que, na minha opinião, estão claramente a desperdiçar potencial por não testarem esta funcionalidade em conjunto com a DC (até para ajudar ao nosso sucesso no Este).

O impacto é significativo, porque permite conjugar melhor as opções da DC, rotação e tendências, com o coaching style, que deve tirar partido dos pontos fortes da nossa equipa contra as fraquezas do adversário.

Ao mesmo tempo, também vejo o coaching style como uma forma de impor o nosso sistema e obrigar mais o adversário a adaptar-se a nós, em vez do contrário. É precisamente esse “tactical mastery game” que adoro no basquetebol.

Admito que as minhas DCs mudaram bastante desde a época passada, muito por causa desta nova introdução no jogo, e fico satisfeito por ver que as diferentes experiências que tenho feito estão a dar resultado.

 

BTG News - Vamos abrir agora a conversa ao resto da liga. Sabendo que és um GM que gosta de ter bastante conhecimento sobre toda a liga, quais são as equipas que mais te têm surpreendido pela positiva até agora? E há alguém que esteja render menos do que estavas à espera?

AL Sem dúvida os Sixers e os Heat na minha conferência. Acredito que ainda vão recuperar, porque têm claramente potencial para isso, mas esperava que estivessem no top 4 neste momento e não tão abaixo na classificação.

Do lado do West, por muito que me custe dizer, quem está a render bem abaixo do que eu esperava são “os meus Spurs”. Com um trio como Trae Young, Anthony Davis e Jalen Johnson, além de um bom conjunto de role players, acho que deveriam estar a lutar pelo top 6 do West e não pela 1st pick.

Pela positiva, destaco sem dúvida os Dallas Mavericks, que têm estado super clutch com um Dame Lillard a altíssimo nível, e também os Warriors, que estão a tirar o máximo partido do plantel longo que têm.

A curiosidade nestas duas equipas é que são as que mais triplos marcam na liga e nenhuma delas tem o “Mr. Steph Curry”, o que as coloca claramente na minha lista de surpresas pela positiva.


BTG News - Está na hora dos palpites! Temos várias equipas com legítimas aspirações ao título e ainda há muito tempo para outros agitarem as águas no mercado e intrometerem-se na luta. Quem são para ti os principais candidatos a levar o anel? Queres destacar algum outsider que, na tua opinião, pode chegar mais longe com a ida “certa” ao mercado?

AL Olhando puramente para a performance e para o valor do plantel, o meu top 3 é, sem dúvida, Sacramento Kings, Portland Trail Blazers e Washington Wizards. Estas três equipas têm plantéis invejáveis e não consigo apontar uma favorita clara, mas acredito que a final do Oeste vai ser entre Kings e Blazers e quem sair vencedor daí terá fortes hipóteses de ganhar o BraTuga.

Com margem para crescer, coloco também os Bulls, que têm um plantel muito semelhante a estas três equipas que referi, mas cujo encaixe entre jogadores ainda não está a resultar como esperado.

Outra equipa onde vejo algo parecido são os Pacers. Apesar do GM considerar surpreendente o desempenho atual, na minha opinião estão a underperform e já deviam estar a fazer mais. Isso até me “assusta”, porque basta 1 ou 2 trocas bem feitas para mudarem completamente o nível da equipa.

  

BTG News - Apesar de não estares no BraTuga desde o seu início, tens um longo percurso em simuladores da NBA. Este ano temos muitos GM’s rookies, que conselhos darias aos menos experientes?

AL Para isso, vou buscar um termo da minha área de engenharia informática: Fail Fast. Basicamente, aconselho os GMs rookies a experimentarem bastante e a não terem medo de falhar, porque isso ajuda a perceber rapidamente o que não funciona e consequentemente, o que funciona.

Esse processo também é importante para entender melhor as dinâmicas da liga, mas sobretudo para descobrir os “combos” que podem criar com os seus jogadores. Isso depois acaba por ajudar bastante, seja na hora de propor trocas, seja a explorar outras opções como Free Agency ou o Draft.

Outro ponto importante é que uma amostra de 1 a 3 jogos não é suficiente para tirar grandes conclusões. Se conseguirem planear blocos de 4 ou 5 jogos com abordagens diferentes, vão perceber muito mais rapidamente o que funciona melhor para a equipa.

 

BTG News - Estamos a terminar a nossa entrevista, desde já agradecemos a tua disponibilidade. Queres deixar um comentário final à nossa comunidade, ou eventualmente alguma sugestão sobre o BraTuga?

AL Primeiro, agradecer-vos pela oportunidade de fazer parte da comunidade, por poder também participar nesta entrevista e, por último mas não menos importante, pelo trabalho na gestão do simulador, que tenho perfeita noção do tempo que isso vos exige para tornar esta experiência cada vez mais divertida.

Em termos de sugestões, vou focar-me naquilo que mais gosto: a gestão da DC e a forma como as equipas jogam consoante as alterações que conseguimos implementar. Uma das ideias que faria mais sentido para mim seria adicionar mais coaching styles, por exemplo dividindo-os em duas dimensões (ofensiva e defensiva), o que abriria muito mais possibilidades e “árvores de decisão” nas simulações.

Por último, a questão da rotação dos jogadores. Pessoalmente, gostava de ter mais controlo manual na distribuição de minutos, em vez de estar limitado a uma rotação fixa de 10 jogadores.

De resto, continuem o excelente trabalho e muito sucesso para todas as novas implementações que aí vêm!

 


10 Comentários

  1. Entrevista cheia de conteúdo por parte do André Lucas, muito útil para todos os GMs, especialmente para os menos experientes.

    É impressionante o trabalho que ele está a desenvolver nos Magic, na época passada os sinais já estavam lá, mas a subida esta época foi vertiginosa. Parabéns!

    Tal como o André refere, eu também procuro manter sempre um 5 minimante equilibrado em todos os momentos do jogo. A meu ver, é essencial usar os Minute Type com critério, para evitar expor a equipa a quebras drásticas repentinas. Nem sempre se consegue mas no mínimo é preciso fazer um esforço para tentar minimizar o impacto.

    Obrigado pela entrevista, pelas palavras simpáticas e pelas sugestões, caro fellow metaleiro!

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  2. Entrevista muito legal e que bom ver meu ex Magic galgando sucesso na liga.

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  3. Excelente entrevista!
    André é um GM com uma visão muito clara e madura sobre construção de equipa e adaptação tática, algo que explica diretamente o sucesso do Magic nesta temporada. O ponto mais interessante é como ele foge da ideia de depender apenas de talento bruto e aposta fortemente em identidade coletiva, equilíbrio de rotações e leitura constante do jogo — algo que muitos subestimam em simuladores.

    Fica evidente também que o desempenho da equipe não é um “overachievement” aleatório, mas sim consequência de um sistema bem implementado. A forma como usa o banco, a gestão de perfis como Coby White e Jerami Grant, e a preocupação em ter sempre funções bem definidas em quadra mostra um nível de detalhe acima da média.

    Outro detalhe interessante é o uso dos “coaching styles” como uma ferramenta central para impor o próprio jogo — algo que separa GMs bons de GMs realmente diferenciados.

    Com certeza, o André é um grande GM e fará o Magic se tornar um contender em breve.

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  4. Um show !!! Grande entrevista do André!!! meu 1 ano de Bratuga e já dá pra perceber o quanto ele é bom GM e coach! Fizemos uma troca ano passado e ele tentou buscar meus melhores defensores - isso diz muito sobre o mindset e como enxerga o jogo. Magic vem muito forte pra temporada e irá ganhar muito "favorito". Fico feliz do GSW ter sido lembrado e destacado por ele - isso já mostra que estamos em bom caminho também!!! Parabéns ao Bratuga pelo conteúdo sensacional ! Que tenham outras desse nível !!!

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  5. Excelente entrevista e conteúdo de um dos meus GMs favoritos.
    Sem starpower consegue fazer uma campanha enorme e o próprio Benny já mostrou interesse em ir para os Magic porque lá pode render mais que em Chicago.
    Boa sorte para o resto da época.

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  6. Mestre André Lucas. Conhece tudo do jogo. Com um time mediano, que na mão de muitos estaria, talvez, lutando pela pick, tem tudo para chegar entre os quatro da conferência.

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  7. O mestre da táctica não desilude. Excelente entrevista e embora o resultado vs roster seja surpreendente, vindo de quem vem diminui muito a surpresa. É um impacto logo tremendo num simulador ter alguém como o Lucas, que consegue dinamizar a liga, dar dicas e melhorar o grupo no conjunto. Parabéns pelo excelente trabalho!

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  8. Parabéns pela excelente entrevista e principalmente pela campanha! 👏🏻👏🏻👏🏻

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  9. Caralhos, que baita entrevista, André Lucas sabe muito, justifica a posição dos Magic, bela entrevista, só engrandece a liga 💪🏼💪🏼💪🏼

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  10. Excelente entrevista com muito conteudo para reter com atençao. Sem duvida excelente trabalho que o Lucas está a fazer nos Magic!
    Boa sorte na caminhada!

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